Orquestra Filarmônica de Goiás dá os primeiros passos para a Temporada 2025Publicado em: 25 de February de 2025

Teatro Sesi de Goiânia foi palco de concerto de pré-temporada da Filarmônica. Mais de 250 pessoas puderam acompanhar a maestria da execução de peças dos romancistas russos, Prokofiev e Tchaikovsky. A noite foi marcada por um turbilhão de emoções
O silêncio típico das noites no Setor Santa Genoveva, em Goiânia, foi quebrado na última quinta-feira (20/02). Quem passou pela avenida João Leite foi surpreendido com sons de violinos, flautas, trombones, clarinetes, bombo e pratos que saíam de dentro do Teatro Sesi. Aos poucos, as escadarias que estavam, até então, vazias, começaram a ficar repletas de pessoas que se aglomeravam em frente às grandes portas de vidro. Ao serem abertas, a antessala, antes tomada por notas musicais, passou a ser preenchida por sussurros e suspiros ansiosos para o espetáculo da Orquestra Filarmônica de Goiás, que aconteceria logo mais.
A professora Mariana Rigonatto era uma entre as centenas de pessoas que ali aguardavam. Para ela, a noite tinha um gosto, ainda, mais especial, já que seria a primeira vez que ela poderia se sentar na plateia para prestigiar e degustar as notas e os movimentos executados pela Filarmônica. “Há muito tempo, eu venho acompanhando as apresentações pelas redes sociais, e sempre me queixei por nunca ter conseguido assisti-la presencialmente. Perdi várias oportunidades, mas dessa vez deu certo. Vi o programa e creio que vou amar. Estou muito empolgada para essa noite”.
A empolgação não era sentimento restrito à Mariana. Nos olhos de quem chegava para aquela noite, podia se perceber o brilho de quem ganha um presente. Empolgada também, uma família chamava atenção de quem por aquela antessala caminhava. Qualquer pessoa poderia dizer que o rapaz vestido, elegantemente, de terno preto fosse o responsável pelos olhares. Mas, para quem se atentou, o brilho e a empolgação vinham de toda a família que afagava o garoto, desejando-lhe sorte para o desafio.
A despedida não seria tão longa, como aquelas em que as pessoas passam dias, meses sem se ver. Na verdade, se encontrariam em breve. O rapaz em cima do palco e a família sentada nas poltronas do teatro. O senhor, que não destoava da elegância do rapaz, vestido de camisa longa azul e calça combinando, contou que o filho, Adriel Esdras, era violista e se apresentaria logo mais. Suas palavras eram de orgulho pelo fato de o musicista fazer parte do grupo sinfônico de Goiás, que vem deleitando os corações por onde passa, no Brasil e no exterior.
“Não é a primeira vez que vejo meu filho no palco. Desde novembro, venho aplaudindo-o nas apresentações da Filarmônica, quando ele passou a integrar essa turma que é muito dedicada e é considerada uma das melhores orquestras do Brasil. É muito gratificante ver meu filho no palco e, ao fim de uma apresentação, ver o público parabenizá-lo de pé. É uma sensação de vitória. Um garoto que nos seus dez anos já dava sinais de que seria um grande músico. Vê-lo aí é uma dádiva, e ter a certeza de que essa experiência o ajudará a crescer, fazendo o que ele mais ama”, conta, orgulhoso, o senhor Abel Donizete de Pádua, que, de pronto, juntamente com sua esposa, entrou no espaço principal em busca do melhor lugar para assistir ao concerto.
Da mesma forma que Abel, outras tantas pessoas percorriam as escadas internas à procura de seus assentos. O burburinho ressoava pelos longos corredores de cadeiras estofadas em cor vermelha, que contrastavam com o piso de carpete cinza. Com o passar dos minutos, as fileiras passaram a ser ocupadas, assim como as cadeiras pretas que estavam dispostas no palco, em formato de meia lua. A luz que iluminava apenas o chão, passou a refletir o dourado dos instrumentos que eram retirados dos estojos em madeira. Mas, quando as luzes se apagaram e a voz do locutor anunciou a abertura do concerto, o silêncio novamente se espraiou, cortado apenas quando a maestra Mariana Menezes subiu ao pódio com sua batuta.
O boa noite da maestra Mariana Menezes foi acompanhado de uma narrativa que levou o público direto para a Rússia, do final do século XIX e início do XX, época em que lá viveram os compositores Prokofiev e Tchaikovsky. Cada palavra escolhida, de forma certeira, reavivou o cotidiano daquele território, as glórias daquele povo, as histórias, lendas e cânticos do folclore local. Os medos, as angústias, tristezas e lágrimas também foram derramadas, lembranças de um período de conflitos, marcado pelas incertezas. A mistura de impressões trazidas por sua fala ficou no ar até que a primeira nota fosse tocada e, assim, confirmasse o dito nos acordes e melodias que passaram a ser lançadas pelo lugar. O repertório daquela apresentação, ganhou corpo e alma através dos 60 músicos que conduziam seus instrumentos, armas de produções de emoções, por cerca de duas horas.
Orquestra Filarmônica de Goiás se apresenta para público, em noite de pré-temporada 2025, com repertório de compositores russos. Fonte: CETT-UFG
A noite foi aberta pela peça “Clássica” de Prokofiev. Sua melodia romântica foi se materializando com passadas dos arcos sobre as cordas de violinos, violoncelos e violas. A flauta transversal e o clarinete, com suas notas doces, não passaram despercebidos. No baile musical, com subidas e descidas da melodia, o inconfundível fagote também brilhou. Os trechos, embora de notas simples, eram executados em alta velocidade, como fora proposto pelo compositor russo. Desafio que foi superado pelos longos e exaustivos ensaios realizados pelos músicos, sejam no teatro ainda sem seu público cativo, sejam em casa quando a noite caía, como conta o jovem violista que há pouco tempo integra o corpo de músicos, mas que já encanta quem pode ouvi-lo tocar.
“Esse retorno está sendo desafiador. O repertório dessa noite nos retira do conforto por conta da velocidade de execução da peça de Prokofiev, por exemplo. Não estou tão acostumado, mas, ao ser provocado, passei a me dedicar ainda mais para alcançar a destreza exigida para a peça. São horas de ensaios coletivos todos os dias e outras tantas em casa, à noite. O trabalho é árduo, mas a recompensa de voltar ao palco é maior”, reconhece o jovem Adriel Esdras, que tocaria mais uma vez para seu pai, Abel Donizete e toda sua família, que observavam da plateia a sonoridade vinda de sua viola, instrumento que não foi escolhido pelo músico, mas que foi ela, a viola, que o convidou para tocá-la, mesmo quando todos à sua volta a olhavam com desprezo. No palco, podia-se ver o quanto a viola se encaixava perfeitamente nas mãos do músico, e o quanto ele a abraçava carinhosamente e retirava dela notas intensas, altas e ágeis.
Violista, Adriel Esdras, passou a integrar a Orquestra Filarmônica de Goiás em novembro do ano passado. Fonte: Divulgação.
Ao sair de cena, Prokofiev, deu lugar ao seu conterrâneo, Tchaikovsky, que ganhou a vez no palco principal. Sua “Pequena Rússia”, com ares gélidos e abraços calorosos, foi dedilhada, soprada e percussionada. Nenhum corpo ficou inerte e estancado. Músicos se remexiam aos comandos da maestra, enquanto o público era envolvido e trazido para o palco. Na valsa de movimentos que se desenhava, várias máscaras eram jogadas para a plateia, que as experimentava como se estivesse participando de uma encenação teatral operística, se assemelhando àquelas escritas pelo compositor e que fazem sucesso ao redor do mundo desde as suas primeiras apresentações. Raiva. Alegria. Medo. Entusiasmo. Melancolia. Esplendor. Mágoa. Gratidão. Depressão. Euforia. Alguns dos muitos sentimentos que poderiam ser sentidos por todos da plateia, suspensa por um tempo que não corria, cronologicamente, na verdade, um tempo que se estendia para a alma.
E não foi apenas a professora Mariana, aquela que aguardava ansiosa pelo concerto filarmônico, que experimentou aquele universo de sensações pela primeira vez. A estudante Ana Flávia Costa não estava acostumada a assistir apresentações como esta, e, logo em sua iniciação musical, acabou se encontrando com a força do repertório de Tchaikovsky. “É a primeira vez que eu ouvi a Filarmônica. E não sou acostumada a vir a eventos como este. Estou muito surpresa porque nessa noite experimentei de tudo, senti diversas emoções num curto prazo de tempo. Confesso que não compreendi como era possível sentir algo e depois já sentir outra coisa tão diferente. Eu fiquei bem envolvida com a apresentação, e quando a música crescia, eu fiquei entusiasmada, quando a música descia, fiquei tensa, noutros momentos, acontecia coisas que me surpreendia”, relata a estudante que não escondeu, em momento algum, sua agitação, o que podia ser observado pelo movimento frenético das mãos e olhos que se dirigiam para todos os lados, ao descrever a experiência vivida.
Em uma sincronia perfeita, combinando os movimentos das cordas, os estampidos dos metais e as batidas dos pratos, a maestra Mariana Menezes, pela última vez, colocou seu instrumento de coordenação em riste, indicando a execução da última nota. Com a batuta levada em direção ao chão, os acordes foram, então, substituídos por uma salva de palmas, agora conduzidas não mais pela maestra, e sim pelo público. Os aplausos receptivos realizados de pé, saudavam o talento dos musicistas, que, outrora tensos, respiravam aliviados, com sorriso nos rostos de que o dever, o desafio dito por Adriel Esdras, havia sido completado.
Com as luzes do teatro acessas, cada pessoa, que deste verdadeiro espetáculo participou, iniciou o regresso a Goiânia, da viagem que acabara de realizar pelos campos e cidades russas. Os passos dados através do carpete cinza, durante o episódio de desembarque, fizeram com que os ponteiros do relógio, anteriormente congelados pela música, voltassem a correr e a marcar, cronologicamente, a noite na capital goiana. O estudante Danilo Marques confessou que não resistiu ao sequestro realizado pela Orquestra. “Acho incrível o poder que a música tem em fazer o ouvinte viajar para outros lugares, sem que saiamos das nossas cadeiras. Às vezes, me pego fechando os olhos, quem me observa pode deduzir que peguei no sono. Porém, nesse momento, estou indo para lugares incríveis pela imaginação, me aprofundando na história que está sendo contada ao longo da peça executada”, reflete o jovem, com olhos brilhando e o coração palpitando além do que é rotineiro para aquela idade.
A noite poderia ser representada por várias simbologias. Noite de encontros e de despedidas. Primeiro, o encontro dos músicos com o palco iluminado, que há quase dois meses não os recebia. Segundo, o encontro da Orquestra Filarmônica de Goiás com o público que lota as apresentações, como assinala o violinista, Victor Iliev, em palavras entusiasmadas. “É uma sensação única voltar depois de quase dois meses. De fato, o palco faz falta para o músico. Nós nunca largamos nossos instrumentos, independente de estarmos em temporada ou não. Mas, voltar e encontrar a casa cheia, é um deleite para nós. A sensação de tocar para eles é indescritível”, conta o jovem secando as gotas de suor derramadas ao longo da apresentação e devolvendo o violino para o descanso em sua caixa, até que seja, novamente, retirado para outra aparição. É a despedida do violinista de sua paixão.
Contudo, outras despedidas também se realizaram. A da Filarmônica que disse um “até breve”, mas outra, em especial, a da violista, Yohanna Pereira, que realizou sua última apresentação. Triste por ter que dizer adeus, feliz por ter concluído um ciclo, a musicista narra sua experiência nos últimos anos, de forma a agradecer a oportunidade recebida. “A noite foi maravilhosa. É muito gostoso ter tocado esse repertório em minha despedida. O coração está apertado, e ao mesmo tempo estou muitíssima feliz por ter feito parte dessa orquestra, que me abraçou por dois anos e meio. Foi uma experiência única. Só tenho a agradecer a esse corpo que tem feito um trabalho primoroso e irá surpreender com a nova temporada que se inicia”, grita de alegria, sem ocultar a vibração que ainda sentia ao fim do espetáculo.
Violinista, Victor Iliev, e a violista Yohanna Alves se aprensetam em concerto de Pré-temporada da Orquestra Filarmônica de Goiás. Fonte: redes sociais.
É inegável que a adrenalina corria nas veias e artérias de todos que puderam comparecer naquela noite, seja o público que acabara de deixar as poltronas da plateia, seja os músicos que saíam pela coxia carregando os instrumentos pelas mãos e nas costas. Ali no palco ainda restavam poucas pessoas. A que mais se destacava era a Maestra Mariana, que andava de um lado para o outro, dando atenção a quem a ela se dirigia para parabenizá-la. Entre as congratulações, apertos de mão e abraços, a maestra pôde expressar o conjunto de emoções em que se encontrava.
“Mais uma apresentação concluída, e com primor. A adrenalina está alta, presente em todo meu corpo, e arrisco-me a dizer que essa sensação não desaparecerá nesta madrugada. É o primeiro concerto do ano, aguardamos ansiosos pelo retorno, ainda mais por querer voltar, e voltar com tudo. Ao mesmo tempo que senti o peso da responsabilidade, me senti contente. A noite foi maravilhosa, e acredito que o público também tenha gostado, pela satisfação que nos receberam”, revela a maestra mineira, que viveu parte de sua vida em Brasília e que divide seu coração também com Goiânia. Visivelmente extasiada, a maestra transparece a emoção que aqueles músicos também devem ter sentido por aquela noite especial. Noite que foi um aperitivo do que está por vir em 2025. Assim, como o Teatro Sesi foi inundado por energias vibrantes, a partir de agora, outros teatros serão palco da mesma emanação que se origina dos instrumentos da Orquestra Filarmônica de Goiás. Aguardemos, portanto, por outras noites como essa.